sábado, 16 de outubro de 2010

TRANSDISCIPLINARIDADE

Transdisciplinaridade

Para escrever este ensaio sobre o tema transdisciplinaridade, cito uma fábula “As formigas e a pena”, do poeta indiano Idries Shah, autor do famoso livro “Mullá Nasrudin”.

Certo dia, uma formiga que caminhava, perdida sobre uma folha de papel, viu uma pena que escrevia em finos e negros movimentos ritmados.

- Que maravilha! – exclamou. – Essa coisa notável possui vida própria! E faz rabiscos tão extensos e com tanta energia, nesta bela superfície, que chega a se igualar aos esforços de todas as formigas do mundo.

- Os rabiscos que faz, parecem formigas! Não uma, mas milhões de formigas correndo juntas!

Ela repetiu suas idéias para uma companheira pesquisadora, que ficou interessada em sua história e elogiou seus poderes de observação e reflexão. Mas outra formiga disse:

- Aproveitando-me de seus esforços, devo admitir que tenho observado esse estranho objeto e cheguei à conclusão de que ele não é o dono de seu próprio trabalho.

Você falhou em observar que a pena está ligada a outros objetos que a rodeiam e conduzem. Estes devem ser considerados como a origem de seu movimento e reconhecidos como tal.

Desse modo, as formigas que entendiam de anatomia descobriram os dedos.

Passado algum tempo, outra formiga escalou os dedos e percebeu que eles compreendiam a mão, que ela explorou total e municiosamente, ao estilo da sua espécie. Voltou, então, para junto de suas companheiras e gritou-lhes:

- Formigas! Tenho importantes notícias para vocês. Aqueles pequenos objetos que rodeiam a pena fazem parte de outro muito maior. E este é que, realmente, dá movimento a todos eles.

Mas, então, as formigas descobriram que a mão estava ligada a um braço; que o braço estava ligado a um corpo, que não existia uma, e sim duas mãos; e que existiam pés, que não escreviam.

As investigações prosseguiram e, assim, as formigas puderam formar uma idéia clara da mecânica da escrita.

Porém, através de seu método de investigação costumeiro, não conseguiram descobrir o sentido e a intenção do que estava escrito, nem como aquilo era, em última análise, governado, porém iriam consultar outras formigas entendidas no assunto.

Pois bem, com base no artigo 13 da Carta da Transdisciplinaridade, elaborada no Primeiro Congresso Mundial da transdisciplinaridade, Convento de Arrábida, Portugal, (1994): “A ética transdisciplinar recusa toda atitude que se negue ao diálogo e à discussão, seja qual for sua origem – de ordem ideológica, científica, religiosa, econômica, política ou filosófica. O saber compartilhado deveria conduzir a uma compreensão compartilhada, baseada no respeito absoluto das diferenças entre os seres, unidos pela vida comum sobre uma única e mesma Terra”.

E no artigo 14: “Rigor, abertura e tolerância são características fundamentais da atitude e da visão transdisciplinar. O rigor na argumentação, que leva em conta todos os dados, é a melhor barreira contra possíveis desvios. A abertura comporta a aceitação do desconhecido, do inesperado e do imprevisível. A tolerância é o reconhecimento do direito às idéias contrárias às nossas”.

Transdisciplinaridade é uma concepção do conhecimento, um novo método de investigação uma nova compreensão do ser-humano e do mundo.

Ciro Goda. 20/ fevereiro/ 2008.

“O anonimato de um espetáculo”

“O anonimato de um espetáculo”

Sábado, dezesseis horas e trinta minutos.

O outono iniciara há um bom tempo, mas, um dia atípico, convidativo para um mergulho, furar umas ondas, rolar na areia, transformar-se em um saudável bife à milanesa, e descansar preguiçosamente em uma das quarenta e duas praias que rodeiam a Ilha da Magia. Para atiçar-lhes à vontade, os ônibus e os veículos de passeios passavam repletos de banhistas, muitos com a pele avermelhada lembrando “camarão ao bafo”.

Um dia, realmente quente, com sol inclemente de dias de verão, nenhuma brisa para aliviar o esforço do transeunte que subia a rua íngreme que dá acesso ao Morro da Penitenciária. Um único elemento se movia rapidamente, era a gota de suor que descia a face brotada da fronte vincada pelo tempo.

O céu anil era preenchido por coloridas pipas que insistiam em voar, cada vez mais alto, para fugir do mormaço produzido pelos telhados de zinco, travando verdadeiras batalhas aéreas, na tentativa de fuga do corte de linha tratado a cerol, executando acrobacias e mergulhos durante a fuga.

Cansativa e estafante caminhada, andando em zigue-zague pela rua de paralelepípedos deslocados pela correnteza das águas da chuva, quão penoso e cansativo é para um morador de morro chegar a sua residência após um dia de trabalho.

As complexidades topográficas e econômicas separam as classes sociais por uma simples rua. Outro lado, a classe média alta, com luz, água, telefone, carros novos, belos jardins, altos e imponentes muros, dourados números identificando-lhes a residência; e do outro, a classe de baixa renda, sofrida, sem infra- estrutura, sem saneamento básico, sem água, sem rua e sem o numeral identificando-lhes o ponto de chegada, mas a natureza é igualmente generosa no visual que os presenteia.

Chego ao local denominado “Grota”. A palavra correta seria Gruta, devido à imagem da Nossa Senhora da Aparecida, padroeira da localidade ali inserida. No local um pequeno cruzeiro de madeira de uma árvore cujo nome não recordo, mas a tradição dos seguidores do Beato João Maria, afirmam que na comunidade onde fincassem a cruz e esta prosperassem, essa comunidade também irá prosperar.

A primeira etapa estava vencida. Ufa! faltava um outro tanto, mais estafante...

Fôlego renovado, o difícil estava por vir.

Começa a íngreme e longa escadaria irregular, com lances e patamares alta odores e fragrâncias dos mais diversos temperos, exalavam pelas janelas e frestas dos casebres.

A escadaria é o elemento de ligação do heterogêneo grupo de habitantes. Ao longo dela, moradores trocam idéias, divulgam notícias de batismo, aniversário, compra, venda tomam chimarrão, contam piadas, atualizam endereços, organizam excursões, enfim, é o”point” de encontro dos moradores.

A solidária escadaria acolhe tanto a garota sonhadora que saltita quanto o confeiteiro preocupado que interrompe uma boa conversa para preparar a sua encomenda de bolo “Sonho de Valsa” e outros, Sonhos ou Valsas... .

A aculturação da língua inglesa também se faz presente em vários cardápios escritos nas paredes dos botequins: x salada, x eggs, hot dog... .

Várias crianças brincam de soltar pipa, no local denominado, por eles, de pedrão.

Cumprimentando um, saudando outro, respondendo com acenos, continuo, desviando das pedras e águas de esgoto. Uma passada pela casa do Tio Neno. Mais uma vez aprecio o cenário onde os Quintanas declamariam: “No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: ... o cheiro que tinha um dia o próprio vento...”.

Vários “boas tardes!, oi!, tudo bem!” Pula aqui, corre lá, passando por ruelas improvisadas, afinal a chegada ao local denominado: “campinho”.

O cenário é deslumbrante, surpreende, embriaga qualquer abstêmio - Avenida Beira Mar, a Universidade Federal, a subida do Morro da Lagoa, o manguezal do Itacorubi, berçário de muitas espécies, e este local parece realmente, ser abençoado pela cruz que está logo acima.

Lembro, então, de Fernando Pessoa ”O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.

O “campinho” é realmente um diminutivo em sua extensão morfológica e geográfica.

-Você já retornou aonde você brincava quando criança? Parecia ser grande, cheio de sonhos, faz de conta e realizações. Quando se retorna já adulto, perde-se a nitidez dos sonhos, as fantasias, tudo parece limitado, estático distante, a árvore que servia de ônibus, cavalo alado, casa, nada mais disso existe, para consolo apenas uma simples árvore e silenciosa.

. . .

O jogo de fantasia na descrição de Tolstoi lembra de crianças brincando com uma velha carruagem. “Um fazia de cocheiro e outro de lacaio, e as meninas ficavam no meio: as três cadeiras eram a tróica de cavalos, e nos púnhamos a caminho. As crianças se reúnem em uma decrépita e abandonada carruagem E que aventuras nos aconteciam nessa viagem imaginária! E com que rapidez se passava os longos e alegres serões de inverno! Se se enxerga tudo com os olhos da razão, já não é possível brincar. E se não se brinca, que nos resta, então?”.

Para o educador Paulo Freire que acedeu ao se comprometer politicamente com a tarefa da recuperação da humanidade do oprimido, relata ao retornar do exílio: “Há pouco tempo, com profunda emoção, visitei a casa onde nasci. Pisei o mesmo chão em que me pus de pé, andei, corri, falei e aprendi a ler. O mesmo mundo – primeiro mundo que se deu à minha compreensão pela“leitura” que dele fui fazendo. Lá, reencontrei algumas das árvores da minha infância. Reconheci-as sem dificuldade. Quase abracei os grossos troncos – os jovens troncos de minha infância. Então, uma saudade que eu costumo chamar de mansa ou de bem comportada, saindo do chão, das árvores, da casa, me envolveu cuidadosamente. Deixei a casa contente, com a alegria de quem re-encontra gente querida”.

Viagens! O belo e crianças emocionam artistas e pensadores intelectuais...

Algumas crianças já brincavam quando cheguei em companhia de mais dois garotos, o “Zé e o Alemão”. Adentramos no Estádio Campinho, “esculpido” em um barranco das escarpas do Morro da Cruz, em chão batido, de oito metros por seis, desafiando as leis da física e da matemática e que apaixonaria Burle Marx em seu paisagismo natural e colorido emoldurante. Passo primeiro por uma sabatina:

O que tio está fazendo? Perdido! Exclama Zuzú.

Perdido!

Tirando fotos? Questiona Re

Apenas passeando...

A embriaguez da beleza do local persiste...

Ao lado leste, verdejante mangue do Itacorubi, Santa Mônica, Universidade, Pantanal, caminhos que vão ao norte da Ilha, Bairro completo da Trindade.

Retorno ao mundo das brincadeiras...

As traves são confeccionadas com pedaços de galhos retorcidos, tamanho aproximado de um metro, denominado “gol fechado”, amarrado com pedaço de tiras de pano e de sacolas plásticas.

De repente, ouço:

Oh! Vamos começar logo o jogo era o Zuzú.

“Zuzú”, garoto de baixa estatura, por volta dos doze anos, loiro oxigenado, traços sofridos, mas feliz por brincar com os amigos, com a camiseta surrada e suada que portava com galhardia mesmo sabendo que o time pelo qual torcia perdera por escore sete, nos pés, tênis sujo e rasgado, mas agüentaria mais algumas batalhas.

Logo um outro interrompe:

Vamos!.

Era o “Zé”. Moreno franzino, sem camiseta, parecendo o cantor “lacraia”. Pensa em futebol diuturnamente, se colocado contra a luz conseguiríamos um raio-X de suas costelas, uma vez que era possível até contar-lhe a costela. Bermuda estilo surfista, gasto, parecia que tinha naufragado e estava à deriva por vários dias, pelo tamanho, certamente, recebera de herança do irmão mais velho, ou de doação, sandálias havaianas de cores diferentes, que importa, se na hora do embate joga descalço, pois assim controla melhor a pelota. Seu nariz escorria com freqüência, mas isso não o importunava.

Talvez uma das razões de chamar o jogo de futebol de “pelada” é porque a bola utilizada estava despida na maior parte do couro, via-se pedaço escuro da câmara de ar, fiapos de linhas, “prontas para fazer depilação”, afirmavam jocosamente os garotos.

Um detalhe marcante transportou-me à infância, ao jogo de futebol, na hora da divisão, quando alguém estava fazendo embaixada ou pianinho, ou chutando ao gol, percebi que aqui também há dificuldades na hora da divisão, a razão talvez seja porque não se sabe quais foram escolhidos.

O terceiro que toma a iniciativa de pedir para parar com a bola é o “Re”, pequeno, porém forte, contrário de Zé, aparência de doze anos, cabelo estilo índio Cherokee, mechas oxigenadas, cheio de vontade e habilidade invejável.

Quarto elemento “Alemão” pelo próprio apelido deduz-se que é um garoto loiro, tez clara, rosto cheio de sardas, aspectos de descendente de alemães, olhos azuis, cabelos curtos ; com a aba do boné posto para o lado direito, camiseta super surrada, rosto e pés sujos e unhas sem cortar há vários dias. Uma das razões do apelido, talvez seja, pela fala ser pouco compreensível, assemelhando a resmungos.

O último a agregar a lista é o Nício, moreno, aparência treze anos, longilíneo, boa habilidade e com boa noção de tempo e espaço, porém apresenta sincinesia na hora do drible coloca a língua para fora, ou retorcia o lábio inferior.

Após várias conversas dividem as equipes e um senta-se ao meu lado e diz:

- Tenho que esperar fazer dois gols, tiro um e faço uma dupla pra joga cumigo.

O jogo flui sem maiores transtornos, uma ou outra entrada mais grave, punido com falta, outro lance duvidoso, um reclama, outro diz que não foi, noutro - “não pedisse falta”.

As comemorações dos “gols” um espetáculo à parte, soma de coreografias homenagens trejeitos dos ídolos do futebol. Criatividade, energia e coordenação motora se complementam.

E o jogo transcorre sem maior discussão ou lances graves, às vezes interrompido quando uma pipa vem, cambaleando feito bêbado, céu abaixo, então os garotos, lançam-se entre as vegetações em busca da mesma. Quando a bola cai entre plantas com espinhos, quem está de tênis é o convidado ao resgate da mesma.

O grande embate se mantém por duas horas, sem preocupação em levar as regras ao pé da letra, quando perdem o interesse, propõem a parada.

Surgem verdadeiros comentaristas estilo “a poderosa”.

Sr. viu o meu gol de letra?

O meu passe de primeira?

E meu chapeuzinho?

Meu passe de calcanhar?

O Sr. viu meu gingado de Robinho?

Descemos até o meio da comunidade, ouvindo os comentários e sentindo o quanto são felizes mesmo com o pouco que têm... Oxalá, um dia se tornem Ronaldinhos ou Robinhos.

Voltando a Fernando Pessoa, momentos inesquecíveis são por certo as alegrias vivenciadas em comunhão; coisas inexplicáveis são pequenos milagres de tornar um simples campinho em verdadeiro Maracanã, com expectadores de clássicos de Fla X Flu ou Sansão. Atividades deste gênero contribuem para o desenvolvimento da auto-estima e da sociabilidade da criança e pessoas incomparáveis são, por certo, pessoas que influenciam positivamente para o desenvolvimento dessas crianças como ser humano.

“A criança que não brinca não é uma criança, mas um adulto que não brinca perdeu para sempre a criança que existe nele”, abençoaria Pablo Neruda ao presenciar tamanha energia no colorido mágico da infância que insiste em sobreviver nos improvisados campinhos de futebol, em várzeas ou em escarpados e desafiadores morros que abrigam esses cidadãos quase invisíveis aos olhares altivos de uma sociedade burguesa e intelectualizada.

De retorno ao início da escadaria, com pernas que insistem em denunciar o cansaço, os olhos extasiados pela beleza da localidade, o cérebro ainda pulsa o poema Prosopopéia de Drummond:

Quem sou eu para te cantar, favela,

que cantas em mim e para ninguém a noite inteira de sexta-feira

e a noite inteira de sábado

e nos desconheces, como igualmente não te conhecemos?

Sei apenas do teu mau cheiro: baixou a mim, na viração,

direto, rápido, telegrama nasal

anunciando morte... melhor, tua vida.

E assim sigo a passo lento morro abaixo e retorno meu último olhar, percebo a noite caindo serenamente sobre o morro, espocando algumas lâmpadas aqui e ali.

BRINCAR É COISA SÉRIA

BRINCAR É COISA SÉRIA

Ciro Goda

Mestre/Professor de Educação Física

Membro do Grupo Oficinas do Jogo

gohda.ciro@gmail.com

Passado o grande momento desafiador, que o foi para muitas crianças, nada mais gratificante o tão sonhado período de férias, época de esquecer os deveres, a maratona das inúmeras obrigações com horário, as incontáveis solicitações em situações nem sempre afáveis, sem poder descansar e espairecer.

Este período coincide com o período de promessas, luzes, cidades decoradas, enfim, o grande momento da generosidade, que é o Natal. Chegou à época de ganhar presente ou ainda poder escolher o “brinquedo predileto” prometido durante o ano e os não prometidos por muitos familiares.

Convém salientar para os pais, detalhes que dos seis aos sete anos, aproximadamente, as crianças definem grande parte de seu desenvolvimento afetivo, cognitivo, físico, mental e social. Adoram movimentar-se, pular, disputar corrida com o colega ou com a brisa, quando muitos pais tolhem, limitam esse tipo de ação. Importante, também, lembrar que eles adoram ouvir histórias, desenhar, escrever (garatujas), gostam muito de brinquedos, preferencialmente multicoloridos, e que possam montar e desmontar, desafiando o seu poder de dedução e raciocínio.

Quão valioso é ter um ambiente rico em informação que possa estimular o desenvolvimento. Os brinquedos têm um sentido profundo se vierem representados pelo brincar. Muitos pais preferindo o silêncio, a comodidade, a casa perfeitamente arrumada (ou decorada) tolhem e enunciam que não podem brincar, pois estão assistindo televisão, lendo jornal, descansando; não raro alegam terem comprado brinquedos caros e por isso não devem brincar, com medo de que os possam destruir.

Muitos dos brinquedos industrializados têm como objetivo satisfazer necessidades imediatas e tão logo preenchidas essas necessidades, eles vão para um canto, caindo em desuso. Muitos dos brinquedos são desmontados por lhes provocar curiosidade, para verificar a sua funcionalidade mecânica, prova de interesse e inteligência.

Os brinquedos, quanto mais sofisticados, muitas vezes perdem sua função primeira, o de instrumento de brincar, que é a interagir, estimular; ao contrário, as crianças passam a meros espectadores, passivos, observam apenas.

Seria tão encantador tomar um cabo de vassoura, este tornar-se-ia o ágil cavalo alado, o Pégaso, símbolo da imortalidade ou na poderosa espada do homem que vive no planeta Eternia, He Man. Nestes brincar confecciona castelo de areia, podendo tornar-se um arquiteto lúdico.

Quanta habilidade e coordenação motora estarão associando ao brincar de pedreiro, padeiro, motorista, guarda de transito, ou piloto de uma aeronave em um simples balanço. Quem um dia não sonhou em ser um super herói, mesmo vestindo a cueca por cima da calça, ter super poderes, ser invisível, ou ser inabalável ao disparo de uma arma.

Mas o pai “atualizado” desvaloriza-os por não corresponderem ao fruto de seu poder econômico, seu status tão almejado.

A brincadeira infantil constitui uma atividade em que as crianças, sozinhas ou em grupo, podem compreender o mundo e as ações humanas nas quais se inserem cotidianamente, segundo Wajskop, sob uma ótica peculiar de uma faixa etária.

Talvez seja tempo de relembrar que brincar é um direito fundamental de toda criança, e aproveitar as oportunidades educativas voltadas para satisfazer suas necessidades básicas de aprendizagem. Cabe, também, à escola a enorme responsabilidade de se sobrepor ao poder da mídia e do consumo hipnotizante e oferecer oportunidades para a construção do conhecimento através da descoberta e da invenção, do lúdico, elementos estes indispensáveis para a participação ativa da criança no seu meio.

Que tal fazer de seu filho matéria de especialização, mestrado, doutorado em afeto, doação, resgate do amor verdadeiro, enfim, da interação!

E... sejam felizes verdadeiramente!...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

NOVO, AMEAÇA?

NOVO, AMEAÇA? ¹

Em algum lugar do país, não tão distante assim, havia uma pequena vila, quando digo havia, é porque havia mesmo, era acolhedora, charmosa e pacata embora cercado por um imponente muro branco; aí, seus moradores viviam felizes.

Subitamente, num belo amanhecer apareceu um estranho objeto composto de duas varas paralelas postadas na vertical e ligadas por travessões paralelos e eqüidistantes, amarradas, que provoca verdadeiro transtorno e agitação na vila.

Passaram-se horas e horas, a multidão foi se aglomerando ao redor daquela peça misteriosa, embora ninguém tivesse a ousadia de aproximar-se, admirando-a inquietas. Alguns chegavam a afirmar que fora deslocado durante uma rajada de vento, outros dizia que o estranho objeto desaparecia ao anoitecer, mas nada disso acontecia.

Dias após dia, a maior notícia do lugarejo consistia no tal objeto estranho que de forma inesperada e misteriosa aparecera na vila, desconhecia-se a precedência tampouco o paradeiro de quem a depositara junto ao muro. A única certeza resumia-se no aumento de curiosos, multidão aumentava, assim como, os emitidores de opiniões, os “achistas”; falava-se muito, mas, nenhum tinha a coragem de se aproximar para analisar e chegar a um parecer mais sólido, fundamentado.

Vários anciãos foram consultados, e eis que se aproxima um sábio nonagenário que afirma categoricamente:

- É uma escada!

- Uma escada! Exclamam os demais.

- Sim, uma escada.

- E para que serve uma escada?

O velho sábio impostou a voz e disse mansamente:

- Possui várias utilidades, do acesso a planos de alturas diferentes, alcançar um local de difícil acesso e também, ao galgá-la poderão admirar o que existe de belo, de diferente, além muro, observar locais distantes ampliando seus horizontes.

- E você tem coragem de subir? questiona a multidão.

- Pudera! Desfrutar novamente as belezas que descortinam além do horizonte, mas devido à avançada idade, não mais tenho condições, mas ainda antevejo o belo do outro lado. Posso afirmar que já o fiz várias vezes. Dito isso, retirou-se calmamente, assim como chegara.

E todos observaram a sua retirada e continuaram a analisar e admirar a escada.

Passaram-se horas, de repente, surge em meio à multidão um jovem que de posta diante do, até o presente momento, “estranho objeto”. Estendendo os braços, segurando firme nas grandes varas laterais avança pé-ante-pé escada acima, de início, hesitante, e em seguida com olhar desafiador... .

A cada degrau vencido causavam um ooohhh!! na multidão que nervosamente assistia o embate entre o jovem e a desconhecida escada.

Vencida a última etapa, chegando ao topo, pôs a mão sobre a testa, fez um gesto de perplexidade e admiração olhando para um lado, depois para o outro, ficando horas a fio contemplando aquele universo novo que se descortinava.

A multidão que o acompanhava embaixo repetia os mesmos gestos e movimentos do jovem desbravador. Quando o jovem movimentava a cabeça para um lado, a multidão o imitava, quando o jovem, lá em cima, colocava a mão na testa, ora à direita, ora à esquerda multidão também fazia, quando o jovem lá no topo esticava o seu pescoço para a visão alcançar um pouco além, a multidão também o imitava e assim perdurando por longo tempo, o estranho ritual: o movimento do jovem e o acompanhamento da multidão.

Extasiado e satisfeito pelo visual, desceu e logo foi abordado pela multidão que ansiosamente o aguardava, lançando-lhe uma avalanche de perguntas.

- O que você viu?

- O que tem de interessante?

- O que se consegue ver do alto?

Mas, ninguém pôde ouvir resposta alguma. O motivo é que o jovem era surdo e mudo. Viram só estampado em seu rosto o brilho da descoberta e a possível beleza do horizonte além muro.

Analisando: somos aldeões, conformados com a vida pacata, sem atropelos, reproduzindo gestos, atos que se sedimentaram sem questionar, temos medo de enfrentar as adversidades, ou insegurança diante do novo.

Ao padronizarmos a rotina, acomodamo-nos, sentimos seguros em não enfrentar sobressaltos, ventos inesperados e assim rotulamos o descortinar da vida amorosa, familiar, profissional como sinônimo de estabilidade – Felicidade.

A aldeia foi sacudida com os trejeitos irrequietos do jovem surdo-mudo cujos olhos brilhavam como nenhum outro visto na comunidade... . E ele nunca mais voltou à serenidade de outrora. Agora algo inquietava os espíritos dos moradores da vila: uns em busca de respostas, outros tentando ganhar coragem para galgar a Escada... .

Enquanto isso, o jovem desbravador, com freqüência, era visto ora subindo animado e cada vez mais seguro de seus atos.

A cada descida da escada, o jovem parecia mais feliz, e visto com freqüência transplantando flores dos arredores para as praças e jardim próximo à escada. . ..

No início os moradores questionavam por que plantar essas flores aqui? Depois, uma ou outra flor começou a aparecer em diferentes pontos da cidade.

E a lei da Atração aconteceu . . ..

Um garoto aos primeiros raios do sol foi visto escalando, temeroso, os primeiros degraus. . . mas à luz do sol, desiste. . ..

O tocador do sino da igreja, outrora único transeunte pelas madrugadas passou a ter companhia, e quase sempre próximo à escada.

Com o tempo, o jovem surdo-mudo passou a ter ajuda em seu trabalho de enfeitar a cidade. Outros, se reuniam, trocavam idéias e, passaram a efetuar, agora, suposições do além muro. . ..

- Quantos mais subiram?

E a casa do jovem amanheceu colorida. A cidade deixou de ser monocromática. . ..

- O que viria depois!

O que se sabe, é que a monotonia mudou de endereço.

Lá reside a mágica do brilho, das respostas.

A esse processo podemos intitular “Avaliação”.

O novo assusta.

Mas, o novo incita a curiosidade... .

E . . . transforma!

Reflita.